quinta-feira, 2 de junho de 2016

A Alegria do Amor: sobre o amor na família

Texto de Ana Cordovil e Jorge Wemans

(no final do artigo, indicam-se as ligações para várias crónicas sobre o mesmo documento, escritas por frei Bento Domingues e pelos padres Anselmo Borges, Fernando Calado Rodrigues e Paulo Terroso)


(foto © BillionPhotos.com/Fotolia; reproduzida daqui


Falemos então do Amor.

Desse Amor que Jesus anunciou como mensagem maior da Vida.
E falemos da Alegria que todos os homens e mulheres experimentam nas suas relações amorosas. De modo muito concreto lembremos tantos rostos que de formas tão diversas e surpreendentes nos ajudam a dizer a Alegria do Amor!
Cabe-nos agradecer, com respeito e emoção, a coragem de muitos e muitas que enfrentam dificuldades sem sentido na construção do Amor que querem viver, na família que querem construir. São estes rostos de coragem que queremos ter, hoje, presentes!

No meu coração, estes rostos têm naturalmente nomes e histórias que desejava partilhar convosco, mas penso não ter esse direito.

Somos um casal que nos demos mutuamente o matrimónio há quase 40 anos e que continuamos a viver um com o outro. Não nos sentimos em nada melhor que outros que percorreram caminhos diferentes, ou que devamos ser vistos como exemplo. Até nos envergonha a possibilidade de olharem para nós como modelo…
Claro que toda a vida – todas as vidas – é fonte de inspiração, por negação ou simpatia, para outros. Devemos inspiração, companhia e apoio a muitos casais que vivem segundo as “regras” da Igreja para a união entre duas pessoas que se amam. Mas, não menos inspiradores, estimulantes e presença viva de Jesus nas nossas vidas têm sido outros “casais” apontados como “irregulares”: mães solteiras, divorciados, gente perdida em processos de doenças diversas com filhos para cuidar, casais do mesmo sexo, casais apenas com união de facto ou vivendo mesmo em casas diferentes, recasados...
Na nossa vida de casal temos tido muitas incertezas no Amor que nos une, mas temos tido a sorte de encontrar força num Amor maior e generoso que se nos dá e nos guia. Esse Amor maior está em nós, naturalmente, mas fortalece-se com a Palavra, com a vida de todos os dias, com a vida comunitária e, como já referimos, cresce graças àqueles crentes e não crentes que nos têm acompanhado.
Entre estes estão também as famílias que nos precederam e as que se vão construindo hoje e nos surpreendem a cada dia como as dos nossos filhos, genros e netos, mas também um grande número de homens e mulheres que fazem das suas relações diversas de Amor testemunhos de Alegria.
Neste contexto, a exortação A Alegria do Amor é, por várias razões, um ótimo começo de conversa. Nela, o Papa Francisco tenta, de um modo sincero, franco e aberto, dar nome. Dar nome às coisas e às situações. E nomear é já um bom começo…
O texto nomeia homens e mulheres que querem viver o seu Amor com a Alegria do Evangelho e que são olhados como menores, ou pecadores. Como podemos nós fazer esse julgamento contra alguém que quer viver o Amor? O Deus que nos ilumina nas horas mais difíceis e com quem nos alegramos não é esse Deus julgador que se alimenta da verificação das regras cumpridas, ou por cumprir.

A Igreja Católica, em Portugal e em muitos outros países, arrisca pouco na mudança de atitudes que emergem na sociedade e em vez de liderar um processo, acobarda-se, tem medo e prefere “conservar” posições em tudo distantes dos homens de hoje.
Por isso alegramo-nos com o facto de a Exortação insistir repetidamente no princípio de que a atitude de misericórdia e o discernimento sobre as situações concretas são sempre superiores à aplicação da norma geral. Ou que as intervenções do magistério não podem resolver todas as discussões morais, doutrinais ou pastorais. E que cabe às igrejas e aos pastores locais desenharem as melhores práticas para se aproximarem de todos, ouvirem-nos, integrá-los e acompanhá-los. Alguns exemplos: nºs 3; 36 a 38; 77 a 79; 238; 241 a 252; todo o capítulo VIII.

Na minha vida tive a sorte de ter uma educação que me abriu o coração ao Amor infinito de Deus e a procurar viver com princípios que se baseiam sobretudo na defesa dos mais esquecidos. Eu e o Jorge procurámos sempre na nossa vida de casal partilhar o que tínhamos e foi assim que educámos os nossos filhos. Lembro-me de lhes dizer que “não te quero com boas notas para seres o melhor, quero que partilhes os dons que tens com quem precisar mais e que te esteja próximo”.
Aprendi na vida a escutar e a aprender com quem num primeiro encontro desdenhei. A construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna depende em boa parte desta atitude. Tenho pena de na minha vida nem sempre ter dado mais atenção a quem me está próximo. São momentos que não vou esquecer porque me envergonham!
Por isto tudo, fico muito magoada quando vejo a Igreja dar mais atenção a normas do que a acolher as pessoas concretas nas suas situações reais.
Devíamos, enquanto cristãos e enquanto comunidades, construir mais diálogo e evitar julgar sem conhecer a diversidade do Amor. Devemos manter o nosso coração aberto para aceitar que o mundo dos homens terá ainda muitas evoluções na sua capacidade de organizar e festejar o Amor.
Espero sinceramente que esta Exortação empurre a Igreja para percorrer um caminho de maior abertura e atenção aos diferentes percursos na procura do amor e da construção de família. Para reconhecer a dignidade e os valores que essas procuras encerram e anunciam. Para discernir quanto de Jesus nos é por elas revelado. O amor na família, aquele que saboreamos quando, para além de qualquer dúvida ou razão, o nosso coração sabe e sente que amamos e somos amadas, esse amor na família oferece-nos a alegria de confiarmos em que assim será.

Sobre “a especialidade”, se assim podemos dizer, gostávamos de sublinhar três aspetos específicos que a leitura da Exortação nos suscitou.

1)   O sacramento do matrimónio.
Embora apenas cinco números sejam dedicados ao sacramento há muito mais referências a ele ao longo da Exortação. Lendo e relendo, fica-nos a certeza de que temos muito para desbravar na atualização da reflexão teológica sobre o matrimónio. Não apenas ao nível da linguagem usada para o tornar minimamente inteligível, como quanto ao entendimento eclesial da sua essencialidade.
Quanto ao caráter indissolúvel do matrimónio, é claro que a Exortação não poderia vir suspender o direito canónico. Mas poderia conter vias mais ricas para refletir sobre a indissolubilidade do que reforçar a via legalista de que muitos matrimónios afinal não são válidos porque não o foram no momento em que os noivos os celebraram. Verdade que também neste ponto é feito um forte apelo para que os pastores e as igrejas locais acompanhem as situações concretas e as avaliem, discernindo sobre elas com coração misericordioso….
Apesar de toda a atenção pastoral que é pedida para com os casos concretos, do entendimento da indissolubilidade faz-se decorrer a exclusão dos recasados da mesa da eucaristia. Exclusão que, salvo raríssimos casos, concretiza, a nosso ver, um exercício exorbitante de impor uma regra eclesial sobre a misericórdia de Deus. E isto apesar de, por outro lado, o texto referir com veemência (nº186) que não são dignos da comunhão todos os que “consentem diferentes formas de divisão, desprezo e injustiça” sobre terceiros.
Cabe perguntar com um pouco de humor: será que as dificuldades da reflexão teológica sobre o matrimónio nascem do facto de este ser o único sacramento obrigatoriamente ministrado por uma mulher?
Em qualquer caso, a linguagem, a aproximação e a atenção a estas realidades é muito diferente do modo como eram tratadas na Familiaris Consortio de há 35 anos, em que João Paulo II se detinha longamente sobre elas, qualificando-as “de praga que vai, juntamente com as outras, afectando sempre mais largamente mesmo os ambientes católicos”.
Também muito significativo nos parece o facto de existirem apenas três referências à Humane Vitea, na mais significativa das quais se recorda o que Paulo VI escrevia quanto à necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de regulação da natalidade. O que se compagina com uma única referência à contraceção quando se condena com veemência as políticas coercivas de alguns Estados neste campo. Contraste nítido com a importância conferida na Familiaris Consortio à denúncia da mentalidade contracetiva e à proposta “da doutrina autêntica sobre a regulação da natalidade”.

2)   O entendimento e a valorização da sexualidade.
Ao longo de um texto com quase 60 mil palavras dedicado ao amor na família, a palavra “sexual” aparece menos de 70 vezes (ou seja, pouco mais de uma vez em cada mil palavras). É pouco. E o que está escrito não é muito conforme ao amor. Nem conforme ao que na própria Exortação se escreve: “um amor sem prazer nem paixão” revela-se “insuficiente para simbolizar a união do coração humano com Deus.”
À importância dos desejos, emoções e sentimentos, da sexualidade e da paixão no matrimónio, incluindo a dimensão erótica do amor, são dedicados 16 números (142 a 157). Neles, junto a perspetivas inspiradoras, surgem nada menos do que oito avisos, oito. E a sequência fecha com esta afirmação em jeito de nono e último alerta “(..) sempre permanece algo que resiste a ser humanizado e que , a qualquer momento, nos pode fugir da mão novamente, recuperando as suas tendências mais primitivas e egoístas”. Com pinças, meninos, com pinças!...

Tanta gente, ao longo de tanto tempo, (pelo menos os últimos sessenta anos) a meditar, refletir e aprofundar sobre o sentido salvífico da sexualidade, o seu lugar como revelação do Homem enquanto ser tocado pelo outro… enfim, merecíamos uma outra valorização da sexualidade. Assim como podíamos esperar mais em termos do olhar sobre a realidade dos casais do mesmo sexo, embora – vá lá!... – nunca se refira a homossexualidade enquanto doença.

3)   A riqueza das reflexões e proposições da Exortação.
Além do que já referimos quanto à importância do discernimento perante as situações concretas, a Exortação comporta, por exemplo, uma belíssima reflexão sobre o texto de 1Cor 13, 4-7 tantas vezes presente nas celebrações do matrimónio. Embora São Paulo não o tenha escrito a pensar no casal, mas sim no amor fraternal, este texto é tantas vezes lido na liturgia dos casamentos que é ótimo os senhores padres poderem ter à mão uma lindíssima e inspiradora glosa deste texto feita pelo Papa Francisco. Sempre se poupam algumas homílias sensaboronas e fora de contexto.
Por outro lado, em vários números e a propósito de diversos temas, a igualdade do homem e da mulher é repetidamente afirmada de modo assertivo e definitivo, sem “ses” nem “mas”. Pode parecer irrelevante, mas não é. Sobretudo num mundo em que a igualdade de género ainda tem tanto a andar para se tornar realidade efetiva.
Finalmente: o grande repto desta exortação encontra-se sintetizado no seu número 312: “(…) Isto fornece-nos um quadro e um clima que nos impedem de desenvolver uma moral fria de escritório quando nos ocupamos dos temas mais delicados, situando-nos, antes, no contexto de um discernimento pastoral cheio de amor misericordioso, que sempre se inclina para compreender, perdoar, acompanhar, esperar e sobretudo integrar.”
É este o programa que a Exortação propõe.

Lisboa, 21 de maio 2016

Este texto serviu de base para o debate havido no Convento de São Domingos, em Lisboa, promovido pelo movimento Nós Somos Igreja.

(Sobre a Amoris Laetitia, podem ler-se ainda três crónicas de frei Bento Domingues, publicadas no Público a 17 de Abril24 de Abril e 1 de Maio 
outras duas crónicas de Anselmo Borges, publicadas no Diário de Notícias a 16 de Abril e 23 de Abril
Fernando Calado Rodrigues escreveu sobre o tema a 15 de Abril e Paulo Terroso debruçou-se sobre o mesmo documento a 22 de Abril
Pode ainda ler-se, aquio comunicado do movimento Nós Somos Igreja acerca do documento do Papa.)

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Lisboa é a casa do ecumenismo durante quatro dias - encontro dos Conselhos Nacionais das Igrejas da Europa

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