sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Prémio Pessoa para Frederico Lourenço – e para a Bíblia e a cultura clássica


Frederico Lourenço foi hoje distinguido com o Prémio Pessoa 2016. O reconhecimento do júri destaca o trabalho do ensaísta e helenista na tradução dos clássicos, o que inclui a maratona a que Lourenço meteu ombros com a tradução da Bíblia dos Setenta, ou Septuaginta, uma tradução do século III a.C. feita por um conjunto de 72 sábios judeus em Alexandria do Egipto. 
Já antes, Frederico Lourenço publicara O Livro Aberto (ed. Cotovia) com um conjunto de pequenos ensaios sobre a Bíblia, no qual revelava a sua paixão pelo texto bíblico. Nesses artigos, colocando-se claramente numa posição antagónica da infeliz frase de Saramago, quando o escritor Nobel falou da Bíblia como um “manual de maus costumes”, Lourenço acaba por deixar o leitor frustrado porque não leva o seu exercício até ao fim. Ou seja, fica enredado quase numa tentação próxima da de Saramago: a de recusar a possibilidade da hermenêutica de um texto clássico.


Uma das edições da Bíblia dos Setenta (imagem reproduzida daqui)

A 8 de Outubro, publiquei na Revista E, do Expresso, um texto de recensão crítica do primeiro volume da Bíblia de Lourenço, no qual afirmava que este era o acontecimento literário do ano. Fica a seguir o texto, acrescentando, em relação ao que era dito, que a recriação da tradução da Bíblia a partir do grego é uma marca indelével deste trabalho.

A Bíblia de Lourenço, acontecimento literário do ano

A primeira observação deveria ser uma evidência: uma nova tradução da Bíblia (mesmo se ainda só com os quatro evangelhos) é o acontecimento literário do ano. A Bíblia, como refere Frederico Lourenço (na apresentação geral da obra a propósito da Bíblia grega, que serve de base a esta tradução) é “um marco da cultura universal que – pelo seu valor religioso, estético e histórico – urge conhecer”.
Seria fastidioso enumerar outros apelos do género, desde Goethe a Bono Vox ou a George Steiner. Só isso deveria bastar para reconhecer a importância de uma nova tradução bíblica. Mas, numa realidade culturalmente deficitária em várias áreas como é a portuguesa, é de temer que isso não se registe em toda a sua grandeza. É uma grande alegria, por isso, que alguém com a erudição e a qualidade reconhecida de Frederico Lourenço se abalance a traduzir a Bíblia.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Cinco mulheres mais importantes do que se pensava na vida de Jesus

A data de hoje é assinalada pelos católicos como o dia da imaculada concepção da mãe de Jesus – ou seja, de que Maria de Nazaré foi concebida sem a mácula, uma afirmação que pode ser objecto de equívocos e mal-entendidos, como se explicava neste textoA mãe de Jesus, decisiva e importante, não foi, no entanto, a única mulher importante na vida de Jesus. Foi uma mulher a primeira a receber o anúncio da ressurreição de Jesus. E há outras mulheres importantes na vida de Cristo, mais decisivas do que tradicionalmente se acreditava.




As bodas de Caná, na versão de Giotto pintada na Capela dos Scrovegni, 
em Pádua (imagem reproduzida daqui)

Maria de Nazaré, Maria Madalena, a samaritana ou a cananeia. Elas estavam lá desde o início. Apesar de desprezadas pela história, várias mulheres tiveram um papel fundamental na vida de Jesus. Muito mais decisivo do que se pensava tradicionalmente. A investigação bíblica recente começa a desvendar factos que contradizem a ideia feita. E a vincar que as mulheres fazem parte do grupo de discípulos de Jesus de forma igual à dos homens.
Assim é: elas estavam lá desde o início e foram apóstolas, discípulas, evangelizadoras, financiadoras, interpeladoras de Jesus. “Jesus aceitou-as e não as discriminou pelo facto de serem mulheres”, diz Maria Julieta Dias, religiosa do Sagrado Coração de Maria e co-autora de A Verdadeira História de Maria Madalena (ed. Casa das Letras). “Jesus não foi misógino, foi sempre ao encontro das mulheres”, acrescenta Cunha de Oliveira, autor de Jesus de Nazaré e as Mulheres (ed. Instituto Açoriano de Cultura).
Os evangelhos citam várias vezes as mulheres que seguiam Jesus “desde a Galileia”, onde ele começara o seu ministério de pregador itinerante. No momento da crucifixão, são elas que estão junto a Ele. Lê-se no evangelho de S. Mateus: “Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia e o serviram. Entre elas, estavam Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.” E é a uma mulher que primeiro é anunciada a ressurreição de Jesus, que os cristãos assinalam hoje, Domingo de Páscoa.
Maria Julieta Dias recorda que, em outra passagem do evangelho de Lucas, já se diz que acompanhavam Jesus “os Doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens”.
As mulheres estavam lá, como discípulas. Em Um Judeu Marginal (ed. Imago/Dinalivro), John P. Meier, um dos mais conceituados exegetas bíblicos contemporâneos, não tem dúvidas: “O Jesus histórico de facto teve discípulas? Por esse nome, não; na realidade (...), sim. Por certo, a realidade, mais do que o rótulo, teria sido o que chamou a atenção das pessoas. (...) Quaisquer que sejam os problemas de vocabulário, a conclusão mais provável é que ele considerava e tratava essas mulheres como discípulas.”

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Advento, II Domingo: O Anjo

Nada no mundo lembra mais as asas de um anjo
do que um par de mãos vazias
Só mãos vazias visitam e se deixam visitar por outras mãos
assim as do Teu anjo iluminaram as de Maria
e as de Maria iluminam hoje as nossas
Que as nossas mãos vazias, Senhor
possam acolher o Teu advento

Imagem: Rui Aleixo MMXV
Texto: José Tolentino Mendonça

(texto e fotos reproduzidos daqui)


Publicação anterior no blogue
Eleições nos EUA - Muros e pontes - um texto de Pedro Vaz Patto sobre as eleições presidenciais nos EUA

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Eleições nos EUA: Muros e pontes

O resultado das eleições nos EUA foi já objecto de um comentário aqui. Na Voz da Verdade, Pedro Vaz Patto volta ao tema, para escrever:

A eleição de Donald Trump surpreendeu o mundo.
Muitos cristãos, católicos e evangélicos, saudaram essa eleição como um mal menor, face à sua adversária, Hillary Clinton, empenhada em alargar ainda mais as possibilidades de recurso ao aborto como direito absoluto, e capaz de limitar a liberdade de consciência e religião em âmbitos “fraturantes” como esse (ficou célebre um seu discurso em que afirmava que os Estados deviam usar meios coercivos para levar as autoridades religiosas a modificar as suas doutrinas tradicionais quanto a essas matérias). Mal menor porque o aborto será, hoje, o mais grave e sistemático atentado à vida e dignidade humanas.
Este raciocínio envolve, porém um grave perigo: centrar unicamente em duas ou três causas (“single issues”) o empenho político dos cristãos, ignorando ou desvalorizando outras causas também importantes, assim descredibilizando esse empenho e justificando acusações de parcialidade e incoerência. 
(texto para continuar a ler aqui)

No artigo, o actual presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) recorda uma acção das comissões europeias sobre a questão dos refugiados, tema que voltou a ser objecto de um documento que pode ser lido na página da CNJP, com o título Criando um refúgio seguro para todos: Refugiados e dignidade humana (clicando aqui e procurando o título ao fundo da coluna da direita)

Publicação anterior no blogue
Advento - Precisamos de uma estrela (um poema de José Tolentino Mendonça e uma foto de Rui Aleixo para o I Domingo do Advento)


domingo, 27 de novembro de 2016

Advento: Precisamos de uma estrela

A Estrela

Precisamos de uma estrela que desarme a noite
Precisamos de uma palavra transparente
que nos ofereça a possibilidade de um começo
Precisamos de uma esperança que se propague
Precisamos de lugares límpidos
fora e dentro de nós
Precisamos de reencontrar uma vida onde a prece
e o louvor voltem a ser possíveis
Precisamos de um gesto para dizer uma alegria
maior do que a alegria
Precisamos de acolher o dom
e o seu equilíbrio difícil e leve
Precisamos de alguém que em pleno inverno nos ensine
a trazer no coração a primavera a arder

Imagem: Rui Aleixo MMXVI
Texto: José Tolentino Mendonça

(texto e foto reproduzidos daqui)

sábado, 26 de novembro de 2016

Não lembra ao Menino Jesus; ou Que(m) esperamos?

Uma estreia nas crónicas do RELIGIONLINE: num comentário aos textos da liturgia católica deste domingo, o padre redentorista Rui Santiago fala do comércio que nos come as papas na cabeça, neste início de Advento (ou melhor, já desde o meio de Outubro...). No blogue Derrotar Montanhas, Sob o título Não lembra ao Menino Jesus, escreve:

Não fosse o comércio a comer-nos as papas na cabeça, e não andaríamos por aí continuamente a dizer que o Advento é o tempo de preparação para o Natal! Foi o comércio que inventou essa, porque nos quer metidos nas natalices até ao pescoço e o mais cedo possível. 
Vi as primeiras decorações de Natal a meio de outubro, numa loja do centro do Porto, e já recebi esta semana - palavra de escuteiro! - uma mensagem de Feliz 2017. Parece que não nos é mais permitido viver nenhum Hoje. Há uma avalanche que nos leva sem darmos conta, como se andássemos a ser cevados por tratadores dum matadouro qualquer. Uma das formas de dormência actual é esta hipnose colectiva, esta náusea gerada pela pressa e pela pressão. 
(texto para continuar a ler aqui)

Vítor Gonçalves escreve, sob o título Que(m) esperamos?:

Entramos de novo em Advento, início dum novo ano litúrgico. Não é um ciclo de eterno retorno, mas a espiral ascendente do tempo cristão, que faz de cada dia o “tempo favorável”, como lembra S. Paulo aos Romanos: “Chegou a hora de nos levantarmos do sono, porque a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçámos a fé” (13, 11). Talvez seja esta uma palavra de esperança para a assembleia sinodal da Diocese de Lisboa que decorre neste início de Advento. Mas como na escola, no trabalho, na família e na vida, a grande diferença será entre a espera que pode acontecer sem nós e a esperança que irá ter a nossa marca! O que escolhemos?


(Ilustração de Bernadette Lopéz, Berna, reproduzida daqui)

Publicação anterior no blogue
Uma penitência católica pela eleição de Trump - sobre o modo de estar católico em algumas questões políticas, tomando o caso dos EUA


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Uma penitência católica pela eleição de Trump

Hoje, no DN, publico um artigo sobre o modo de estar católico em algumas questões políticas, tomando o caso dos EUA:

Deve a Igreja Católica, nomeadamente nos Estados Unidos, penitenciar-se também pela eleição do novo presidente? Há dias, o Papa Francisco gravou uma mensagem aos bispos dos EUA, por ocasião da sua assembleia plenária, dizendo-lhes que o grande desafio do catolicismo "é criar uma cultura do encontro, que encoraje os indivíduos e os grupos a compartilhar a riqueza das suas tradições e experiências, a abater muros e a construir pontes".
A mensagem do Papa sobre o tema tem sido clara em diversas ocasiões. Em Fevereiro, no regresso da viagem ao México, inquirido sobre as intenções de Trump em construir um muro para evitar a entrada de emigrantes, Francisco afirmou mesmo: "Uma pessoa que só pensa em fazer muros, onde quer que seja, e não em fazer pontes, não é cristã. Isto não está no Evangelho."
Apesar dos alertas do Papa, as sondagens pós-eleitorais dizem (segundo o La Croix) que 52% dos católicos votaram Trump (contra 45% que escolheu Hillary). O mesmo aconteceu, em maior escala, se juntarmos todos os grupos cristãos (evangélicos, protestantes, mórmones e outros), entre os quais o candidato republicano foi a escolha maioritária.
(o artigo pode continuar a ser lido aqui)

Publicação anterior no blogue
Fé, justiça e diálogo cultural e religioso, prioridades dos jesuítas para os próximos seis anos - o plano pastoral 2016-2022 dos jesuítas portugueses e um perfil do actual provincial, padre José Frazão Correia


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Fé, justiça e diálogo cultural e religioso, prioridades dos jesuítas para os próximos seis anos

Plano pastoral 2016-2022 apresentado esta quinta à noite, em Lisboa; e um perfil do actual provincial dos jesuítas, padre José Frazão Correia



Foto reproduzida da capa do plano apostólico 2016-2022 
dos jesuítas portugueses

O “serviço da fé, a promoção da justiça e o diálogo intercultural e inter-religioso, num contexto plural e crescentemente secularizado” são algumas das prioridades enunciadas pelos jesuítas portugueses, no seu plano apostólico para 2016-2022, que esta noite de quinta-feira será apresentado em Lisboa (Centro Social da Musgueira, na Rua Maria Margarida, 6, na Alta de Lisboa).
Apresentado no encontro da província portuguesa de 1 e 2 de Setembro último, e aprovado pelo anterior geral dos jesuítas, padre Adolfo Nicolás, o plano será apresentado pelo provincial português, padre José Frazão Correia, num debate com Isabel Figueiredo, produtora na Rádio Renascença.
No documento, os jesuítas afirmam continuar a dar uma atenção especial “à juventude e aos mais pobres”, ao mesmo tempo que desejam “estar mais atentos aos casais jovens e às famílias em dificuldade, ao acompanhamento espiritual do clero diocesano, concretamente através dos Exercícios Espirituais, e das pessoas que se colocam a questão vocacional”.
Na análise que fazem para chegar a estas opções, os jesuítas descrevem um contexto cultural “cada vez mais secularizado”, no qual “imagens e valores que remetiam para a tradição cristã vão deixando de ser quadro de referência comum”. E acrescentam: “A mundividência cristã é cada vez menos partilhada e tida como referência na compreensão da realidade e na configuração do espaço público. Vai-se desenhando, de facto, uma outra antropologia”.
O contexto eclesial, notam os jesuítas portugueses, é de agravamento das “dificuldades sérias na transmissão da fé” e que “a sua relevância vital não é imediatamente reconhecida, nem a cultura se revê espontaneamente na sua força inspiradora”. É notório, verificam ainda, “o embaraço e são reais as dificuldades das comunidades cristãs em enquadrar a crescente aceleração da realidade e de acompanhar ritmos diferentes de vida e de fé”.
Enquanto corpo apostólico, os jesuítas sentem a necessidade de “recuperar a força de traços de sempre e de lhes dar nova forma”. “A vida no Espírito será sempre o húmus elementar de uma vida humana e espiritualmente autêntica, alicerçada e centrada no conhecimento e na identificação com Cristo pobre e humilde, que procura a fecundidade apostólica segundo o Evangelho.” A vida em comum também precisa de ser renovada: “Por estar longe do que deve e pode ser, continua a pedir o melhor de cada um. Em relação ao passado, mesmo recente, irá passar, em vários casos, por estruturas comunitárias mais pequenas, que pedirão outros estilos de vida e outras dinâmicas de relação, de discernimento e de colaboração na missão.”