quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Um jejum contra a violência e as fotos do purgatório dentro da igreja

 



(foto reproduzida daqui)

O Papa Francisco convocou para esta sexta-feira, dia 23, um jejum pela paz e, em especial, pelas populações da República Democrática do Congo e do Sudão do Sul, tendo em conta a “trágica continuação de situações de conflito em diversas partes do mundo”.
Ao convidar os crentes (incluindo “os irmãos e irmãs não católicos e não cristãos” com as “modalidades que considerarem mais oportunas”) para um dia de “oração e jejum”, o Papa acrescentou que cada pessoa se deve perguntar, na sua própria consciência: “O que posso eu fazer pela paz?” E acrescentou: “Certamente podemos rezar; mas não só. Cada um pode dizer concretamente ‘não’ à violência naquilo que depender dele ou dela. Porque as vitórias obtidas com a violência são falsas vitórias; enquanto trabalhar pela paz faz bem a todos!”
Na sua mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa explica precisamente o sentido do jejum, relacionando-o com o fim da violência: “o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.”
Como proposta de oração para este dia de jejum, a Cáritas Portuguesa convidou um conjunto de instituições e movimentos católicos a redigir uma Via-Sacra que servisse de meditação para este dia. “Esta iniciativa resultou, primeiro, num gesto simbólico de união entre aqueles que têm por missão a evangelização e a erradicar a pobreza; segundo, num texto com um alinhamento diversificado que vive da identidade de cada uma destas organizações.” O texto está disponível aqui.
 
A propósito da violência que não se limita às guerras declaradas, merece também referência a iniciativa da Igreja Católica que, nas Filipinas, juntou aos objectivos de uma tradicional Marcha pela Vida a luta contra os assassinatos suspeitos, a declaração da lei marcial no sul do país ou a ideia de restabelecer a pena de morte. Numa semana em que assistimos a um dos mais graves massacres na guerra da Síria e a um novo massacre de jovens numa escola dos Estados Unidos, vale a pena reparar na forma como os católicos de um país se mobilizam contra a instalação de uma “cultura de violência”, como referiu o bispo Broderick Pabillo.
Uma forma de alertar consciências contra outras violências que a Europa está a infligir a muitas pessoas que no continente buscam refúgio, é aquela que propõe a paróquia da Vera-Cruz, em Aveiro: até 4 de Março, dentro da igreja paroquial, os fiéis e muitos visitantes que ali entram serão surpreendidos pelas fotografias de Ricardo Lopes feitas em campos de refugiados.
Grécia: o Purgatório Europeu, pretende mostrar “rostos, a preto e branco, cenas do quotidiano do sofrimento de quem é esquecido”.
E o objectivos, como explica o pároco, padre João Alves, são mesmo o de “incomodar quem ali está ou passa, ajudar à relação entre a Eucaristia e a caridade, porque este ano é dedicado à caridade, e percebermos que a paróquia tem uma fraca sensibilidade sócio-caritativa da comunidade celebrante”. Uma reflexão mais para este tempo, como se pode ler nesta notícia.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

“Uma efectiva conversão ecológica” para Cuidar da Casa Comum

 

“Promover nas comunidades cristãs e nos respectivos espaços (paróquias, escolas, obras e movimentos) uma efectiva conversão ecológica e sugerir caminhos de actuação concreta com vista a uma ecologia integral” é um dos objectivos a que se propõe a rede Cuidar da Casa Comum, que será apresentada publicamente esta sexta-feira, dia 23, no salão paroquial do Campo Grande (Lisboa), a partir das 21h30.
A rede, que tem já uma página na internet, pretende reunir instituições, organizações, obras, movimentos católicos e de outras igrejas cristãs, bem como pessoas a título individual, propondo-se “aprofundar e difundir”, no âmbito daquelas organizações, a encíclica Laudato si’ – Sobre o cuidado da casa comum, publicada em Maio de 2015 pelo Papa Francisco.
“Acompanhar, no espaço eclesial, as questões ecológicas de âmbito nacional e mundial, evidenciando as suas causas e consequências e equacionando-as à luz da encíclica, de modo a promover a tomada de consciência colectiva acerca da sua relevância e urgência”, é outro dos objectivos da rede.
Criada numa perspectiva ecuménica, a rede Cuidar da Casa Comum pretende promover sessões de esclarecimento e sensibilização, fomentar “focos de cuidado da casa comum” (grupos locais empenhados na promoção de uma ecologia integral), incentivar “a reflexão sobre estilos de vida pessoal e colectiva, partilhar testemunhos de gestos e comportamentos de ecologia integral, fazer pontes com iniciativas relevantes que ocorram no espaço eclesial e na sociedade civil”.
O aprofundamento e difusão da “teologia da Criação” e a celebração em comum do Dia da Criação são outras das propostas da rede.
A rede inclui uma comissão de apoio teológico e científico, que reúne professores de Teologia, ambientalistas e cientistas.
Sobre a rede, Manuela Silva, economista, responsável da Fundação Betânia e principal dinamizadora da iniciativa, descreve nesta entrevista as suas intenções mais importantes.
Em França, um projecto denominado Igreja Verde, surgido durante o ano passado, propõe-se também promover a ideia da conversão ecológica e dinamizar práticas de sustentabilidade e comportamentos ambientalmente responsáveis nas estruturas, organizações e movimentos das igrejas Católica, Protestantes e Ortodoxas.

Ponto SJ: um portal dos jesuítas para o debate num “clima temperado”

Ponto SJ é o nome do novo portal dos jesuítas, que nasce esta sexta-feira, dia 23, pretendendo propor um espaço de debate feito num “clima temperado”. O portal ficará disponível neste endereço, a partir das 8 horas desse mesmo dia.
No próprio dia do lançamento do Ponto SJ, haverá uma sessão no Café-Teatro da Comuna, em Lisboa, a partir das 18h, proposta de dois “encontros improváveis – duas pessoas que, à partida, “teriam menos oportunidades de se juntar para debater ideias”. Um reúne o cronista João Miguel Tavares e o padre jesuíta Francisco Mota; no outro, encontram-se Marisa Matias, eurodeputada do Bloco de Esquerda, e a Irmã Júlia Bacelar, que trabalha com mulheres vítimas de violência.
Estas conversas foram precedidas de encontros em que cada pessoa foi desafiada a conhecer o trabalho da outra, fazendo o exercício de se colocar no lugar dela. O provincial dos jesuítas em Portugal, padre José Frazão Correia, estará também presente.
Afirmando-se como “um espaço de reflexão, opinião e comentário que contribuirá para o enquadramento de temas pertinentes da atualidade em áreas como Política, Fé, Justiça, Cultura e Educação”, o portal pretende, essencialmente, “promover o diálogo no espaço público”, como diz o seu director, o padre José Maria Brito (de quem se pode ler aqui uma entrevista a propósito da iniciativa).
Diariamente, haverá comentários de temas de actualidade ou propostas de pistas de reflexão sobre aquelas cinco áreas temáticas. Guilherme de Oliveira Martins, Joaquim de Azevedo, Clara Almeida Santos, Carla Quevedo, Jacinto Lucas Pires, Joana Rigato, Alfredo Teixeira, Isabel Allegro de Magalhães, Margarida Alvim e a irmã Irene Guia, que actualmente trabalha com refugiados no Curdistão, são alguns dos nomes que colaboram no novo portal e que inclui também vários padres jesuítas. 
Num tempo “em que a possibilidade de diálogo aberto e construtivo, capaz de assumir positivamente a pluralidade, está afectada pelo uso de uma linguagem populista, extremada e excessivamente identitária, que impede a escuta e a disponibilidade para compreender a posição do outro”, o Ponto SJ quer assumir-se como um espaço que promova “um clima temperado”, no qual seja possível “conversar e olhar para a realidade com largueza de horizonte e espírito crítico” e, ao mesmo tempo, fazendo a ponte com esferas e grupos diferentes e mais distantes da Igreja.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Cuidar o Futuro: a herança política Maria de Lourdes Pintasilgo


Livro/Agenda

Mesmo se já é utilizada de vez em quando, “cuidar” é uma expressão (e uma acção) ainda pouco comum na linguagem política. Mas era com esse verbo que Maria de Lourdes Pintasilgo procurava sintetizar a forma como deveriam ser olhados os problemas que afectam a humanidade – da pobreza à insegurança, da saúde ao ambiente, passando pelos direitos mais elementares.
A expressão ficou consagrada no relatório Cuidar o Futuro, da Comissão Independente para a População e Qualidade de Vida, presidida por Maria de Lourdes Pintasilgo, naquele que foi um dos seus últimos grandes trabalhos. Editado inicialmente em 1998, mas há muito esgotado, o texto do relatório foi agora reeditado pela Fundação Cuidar o Futuro. Quinta-feira próxima, dia 22, às 18h30, terei todo o gosto de fazer uma apresentação do texto, no Terraço, do Graal (Rua Luciano Cordeiro, 24 – 6º A), em Lisboa (a sessão inclui uma refeição ligeira, com o custo de três euros; as inscrições devem ser feitas até dia 20, terça, para o endereço graallisboa@gmail.com ou o telefone 213 546 831).
Fruto do prestígio, da cultura, da criatividade e da participação em dinâmicas internacionais daquela que foi até hoje a única primeira-ministra portuguesa, o relatório introduz a noção de cuidado na acção política, que seria retomada, em Maio de 2015, na encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, e em outros documentos de acção política e ambiental.
A noção de cuidado talvez não pudesse figurar num relatório desta natureza se a composição da comissão internacional que o elaborou não tivesse sido paritária. Mas era a partir daquele conceito que a antiga primeira-ministra portuguesa defendia algumas das ideias fundamentais do seu pensamento e também do trabalho da Comissão Independente para a População e Qualidade de Vida: a importância de um novo contrato social que envolva a sociedade civil; a necessidade de uma concepção da política que implique não apenas a liberdade mas também a responsabilidade; e um novo conceito de educação e um papel cada vez mais autónomo e relevante para as mulheres.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Emily Dickinson a falar ao Papa Francisco, através de Tolentino Mendonça, sobre a água que a sede ensina


José Tolentino Mendonça (foto agência Ecclesia, reproduzida daqui)

Dizia a poetisa Emily Dickinson que “a água é ensinada pela sede”. Comenta, agora, o padre José Tolentino Mendonça, que “quando acolhemos verdadeiramente o desafio da sede, percebemos que a coisa mais importante não é propriamente satisfazê-la, mas interpretá-la, aprofundar-lhe o significado, intensificá-la, levá-la mais longe. A sede, por si própria, é um património espiritual.”
As palavras do padre e poeta português estão em entrevistas ao L’Osservatore Romano e ao portal de notícias Vatican News, a propósito dos Exercícios Espirituais de Quaresma que, neste momento (18h em Roma, 17h em Lisboa), começam nos arredores de Roma, com a participação do Papa e de muitos dos responsáveis da Cúria Romana. “Devemos ter a coragem de assumir a sede como mestra nos caminhos da alma”, diz Tolentino Mendonça, que citará também outros poetas, escritores e artistas nas suas reflexões, entre os quais Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Antoine de Saint-Exupéry ou Tonino Guerra. Uma síntese da da entrevista em português pode ser lida aqui e a versão integral em áudio pode ser escutada aqui.
Neste outro texto, o próprio Tolentino Mendonça antecipa algumas das ideias do retiro que esta tarde começa em Ariccia. Aqui pode encontrar-se o roteiro deste retiro que se prolonga até sexta-feira, também resumido nesta notícia.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

90 anos de Pedro Casaldáliga: o bispo da “absurda” Esperança



Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix de Araguaia, Mato Grosso, Brasil
(foto reproduzida daqui)

Há pouco mais de 46 anos, o convite para a celebração de ordenação de bispo de Pedro Casaldáliga, então missionário dos padres claretianos no Brasil, dizia, com estas palavras em forma de poema:
Tua mitra
será um chapéu de palha sertanejo;
o sol e o luar; a chuva e o sereno;
o olhar dos pobres com quem caminhas
e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor.
Teu báculo
será a verdade do Evangelho
e a confiança do teu povo em ti.
Teu anel
será a fidelidade à Nova Aliança
do Deus Libertador
e a fidelidade ao povo desta terra.
Não terás outro escudo
que a força da esperança
e a liberdade dos filhos de Deus
nem usarás outras luvas que
o serviço do Amor.
Ontem, 16 de Fevereiro de 2018, o bispo emérito de São Félix do Araguaia (Mato Grosso, no centro do Brasil, a sul da região amazónica) completou 90 anos de vida e uma celebração eucarística assinalou o facto. Uma vida em grande parte dedicada a fazer daqueles votos de consagração um horizonte de acção evangélica, através da defesa e da experiência de um cristianismo servo e pobre, dedicado à protecção dos mais pobres e desfavorecidos. Uma vida que levou a sério a promessa-convite da sua ordenação episcopal, tendo-se sempre recusado a usar símbolos que, na sua perspectiva, falavam mais do poder do que do serviço.
Não foi fácil a vida de Pedro Casaldáliga. Nascido Pere Casaldàliga i Pla, em Balsareny, na província catalã de Barcelona (Espanha), a 16 de Fevereiro de 1928 e emigrado para o Brasil, em 1968, como missionário da sua congregação, os padres claretianos, viria a sofrer várias ameaças de morte (numa das ocasiões, teve mesmo de se esconder, como Fernando Alves evocava na TSF em Dezembro de 2012), esteve várias vezes para ser expulso do Brasil durante a ditadura militar, sofreu incompreensões de algumas estruturas eclesiásticas, teve posições que muitas pessoas não entenderam. Mesmo assim, persistiu na sua forma de estar. 

No Brasil, com o Pacto das Catacumbas
Em 1968, chegado ao Brasil, o padre Casaldáliga encontrou no Mato Grosso uma região marcada pela imensa miséria e analfabetismo, pelo poder dos grandes latifundiários e por assassinatos frequentes dos líderes e das populações indígenas ou rurais.
Nomeado administrador apostólico de São Félix em 1970 e bispo no ano seguinte, recebeu a ordenação episcopal em Outubro de 1971. Na sua actividade episcopal, aderiu ao Pacto das Catacumbas, um documento assinado por vários bispos que tinham participado no Concílio Vaticano II, e que se comprometiam a viver de forma despojada e servindo o anúncio do Evangelho entre os mais pobres. O Pacto é uma das etapas fundamentais que levará ao aparecimento de líderes como o Papa Francisco.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Integrar a fragilidade, refazer a vida inteira




O padre António Pedro em 2015, no Hospital de Santa Maria (Lisboa); 
actualmente, exerce funções de capelão hospitalar no Hospital de Santa Marta 
e Maternidade Alfredo da Costa, também em Lisboa
 
A criadora da noção de cuidados paliativos dizia que “quando já não há nada a fazer, está tudo por fazer”. O padre António Pedro Monteiro, 31 anos, assistente religioso no maior hospital do país, diz que, perante o sofrimento, importa construir um caminho que integre a fragilidade e devolva a saúde pelo perdão de si mesmo e dos outros. E o padre Augusto Cima, 78 anos, manifesta-se muito crítico na falta de profissionalismo no acompanhamento dos doentes feito pelas estruturas católicas (o Dia Mundial do Doente foi assinalado Domingo passado) – ver no final ligação para uma entrevista na TSF.

Quando chega junto de uma das camas, o padre António Pedro ajoelha. Vai conversar com uma doente que chamara alguém da capelania do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Durante dois ou três minutos permanece ajoelhado, pouco mais do que escutando, entre silêncios.
O pouco que vai dizendo aponta para o presente e o futuro, para a alta que estará próxima, depois de oito meses de internamento, tratamentos e outros sofrimentos. A cena inverte o quadro habitual. “Importa mais escutar Deus que está no outro do que catequizar sobre Deus ou catequizar o próprio Deus”, responderá, quando perguntado sobre tal gesto.
Nascido a 12 de Setembro de 1983, em Vizela (diocese de Braga), António Pedro Monteiro é padre do Sagrado Coração de Jesus (dehoniano) desde 26 de Setembro de 2010. Faz parte da equipa de três padres e um diácono que, diariamente, presta serviço de assistência religiosa, em nome da Igreja Católica, no maior hospital do país.
Uma semana antes de ter sido desafiado a fazer esse trabalho, em 2012, estava António Pedro na Madeira. Contactara todas as escolas da ilha, trabalhava num seminário, numa escola de enfermagem e num lar de idosos. Ao fim de dois anos, sentia que começava a “coser várias pontas”. Foi quando o superior provincial lhe confidenciou a possibilidade de um novo projecto pastoral: o patriarca D. José Policarpo pedira um capelão em Santa Maria, mas não sabia como responder. Nesse momento, nem um nem outro imaginavam que, três semanas depois, o diálogo ganharia um sujeito com António Pedro.

O outro como lugar teológico

Aqui está agora, de bata branca, acorrendo a quem chama – chegam à capelania uma média de 60 pedidos de assistência espiritual por semana. “No hospital, temos de ser não só antenas, mas patenas”, foi o que aprendeu na formação. “Se olhamos a pessoa doente como coitadinha e carente do que tenho para dizer-lhe, encaixamos no modelo anterior de assistência, que se propunha dar sacramentos e levar uma catequese preparada. Se trato a pessoa com dignidade e singularidade, e tento ver nela o rosto de Jesus, como propõe o texto de Mateus 25, então aprendemos que Deus está nessa fragilidade.” Mais do que ir junto dessa pessoa para falar de Deus, acrescenta, importa ter presente que se vai ter com o próprio Deus de Jesus: “A mim o fizestes.”

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Músicas que falam com Deus (38) - As Rotas da Escravatura, de Jordi Savall

É uma voz rouca e profundamente africana aquela que nos traz a voz do padre António Vieira: “Os Senhores poucos, os Escravos muitos; os Senhores rompendo galas, os Escravos despidos, e nus; os Senhores banqueteando, os Escravos perecendo à fome; os Senhores nadando em ouro, e prata, os Escravos carregados de ferros; (...) Estes homens não são filhos do mesmo Adão, e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo?” 
Este excerto do XXVII Sermão do Rosário – Maria Rosa Mística é um dos textos que Jordi Savall nos traz nest’As Rotas da Escravatura. O itinerário da obra começa com a evocação da primeira expedição portuguesa para capturar escravos na Guiné, em 1444, e termina 444 anos depois, em 1888, data da abolição da escravatura no Brasil. O percurso musical traz-nos à memória o pico de uma tragédia na qual Portugal tem um papel bem triste, mas que já existira antes e ainda perdura nos nossos dias, mesmo que formalmente extinta. 
O programa deste duplo disco, livro e DVD (cujo espectáculo passou por Lisboa em Abril do ano passado) é um diálogo intenso entre músicas do Mali, México, Colômbia e Brasil. São canções que falam da religiosidade africana, dos sofrimentos e lamentos, dos trabalhos e das penas, a par das pequenas alegrias, dos amores e rituais quotidianos, quase sempre marcados pela música e pela dança – únicos espaços de liberdade que ninguém podia tirar aos escravos, como escreve Jordi Savall. 
Apesar de o diálogo intercultural e inter-religioso através da música ser desde há muito uma das marcas do humanismo savalliano, é a primeira vez que o maestro e compositor catalão penetra na África subsariana. E o resultado é verdadeiramente espantoso, com as vozes e os instrumentos dos três continentes e no qual se destacam as vozes de Kassé Mady Diabaté ou Maria Juliana Linhares ou a deliciosa kora de Ballaké Sissoko (mas é injusto deixar de lado os restantes  músicos, cantores e o recitador). Savall devolve-nos a memória dos cerca de 25 milhões de africanos sujeitos a este tráfico infame e que não podem ser esquecidos (um número equivalente continua, ainda hoje, sujeito a condições de escravatura). A beleza e profundidade desta obra a isso nos obrigam.


Les Routes de l’Esclavage
Intérpretes: K. M. Diabaté, I. Garcia, M. J. Linhares, B. Sangaré, B. Sissoko, La Capella Reial de Catalunya, Hespèrion XXI, 3MA e Tembembe Ensamble Continuo; dir. Jordi Savall
Edição: Alia Vox
(mais informações: vgm@plurimega.com)

(Texto publicado na revista Além-Mar, em Abril de 2017) 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Acesso dos católicos divorciados recasados aos sacramentos – um debate na praça pública

(Foto © Vipweddings, reproduzida daqui)

O tema do acesso aos sacramentos por parte de católicos divorciados que voltaram a casar tem provocado algum debate nos média nacionais. Aqui se publicam um artigo do jornalista Joaquim Franco e as ligações para alguns textos surgidos nos últimos dias (indicadas no final do artigo).

Em consciência – reflexão alternativa sobre ​a nota do patriarca

Texto de Joaquim Franco
(co-autor do livro Papa Francisco A Revolução Imparável)

Agora, que a poeira assentou, podemos e devemos reanalisar as (des)orientações. O cardeal-patriarca de Lisboa podia ter feito um documento sobre o acolhimento condicional e condicionado dos divorciados recasados sem a polémica referência à “abstinência sexual”? Podia. Mas fê-lo, à semelhança do que fizeram outros bispos, embora com um contexto que faz a diferença.

1. As orientações d​o bispo de​ Lisboa refletem também o ​seu ​pensamento. Antes do sínodo da família, entrevistado na SIC, o cardeal-patriarca de Lisboa disse que não via como seria possível os divorciados recasados voltarem aos sacramentos. Pois, se o sacramento do matrimónio é indissolúvel, ​assim se ​mantém, e a situação de recasados coloca-os em violação da integridade sacramental na Igreja.
Depois do sínodo, conhecida já a exortação Amoris Laetitia (AL), em que Francisco abre a porta do discernimento como reentrada para os sacramentos, Manuel Clemente diria noutra entrevista à SIC que aguardava que o Papa esclarecesse o que queria dizer. Conferências episcopais e dioceses começavam a dar as orientações a partir da exortação do Papa, mas Lisboa ainda precisava de esclarecimentos, que acabariam por ser dados pela interpretação e orientações dos bispos argentinos, legitimadas explicitamente pelo Papa, nas quais o patriarca diz que se baseia.
As orientações de Lisboa não deixam de ir ao encontro da abertura apontada na Amoris Laetitia – o patriarca está também a ser criticado pela ala mais conservadora e anti-Amoris, o que não deixa de ser irónico –, e relembram a argumentação de João Paulo II na exortação Familiaris Consortio, de 1981.
Francisco recorda as anteriores propostas de João Paulo II para dar força doutrinária à nova abordagem que propõe na AL. Seria necessário repeti-las no documento de Lisboa nos termos em que foram feitas? As orientações do patriarca refletem as possibilidades de readmissão de católicos divorciados recasados aos sacramentos, mas por via de um processo que se afigura aparentemente mais rigoroso. Manuel Clemente faz questão de sublinhar o “caráter restrito (em certos casos) e condicional (poderia)” destas situações...

2. Quantos católicos divorciados recasados viverão atormentados e com peso de consciência? Muitos são já acompanhados por um padre ou outra pessoa da comunidade referenciada para tal, e que, de forma discreta, sem grandes alaridos, praticam o princípio da misericórdia. 

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Natan Peres, novo rabi de Lisboa, quer uma estrutura judaica mais forte

      


Natan Peres (foto Monique Kooijmans, reproduzida daqui)

     “A comunidade [judaica] em Lisboa tem um legado muito importante, tem uma história muito rica, tem tradições. Mas temos muito para criar em relação à infraestrutura judaica, em relação à disponibilidade de alimentos ‘kasher’, ao ensino e a educação judaica. A ideia é criar uma estrutura judaica mais forte em Lisboa, recolocar o judaísmo português no mapa do judaísmo mundial”, diz o novo rabi da Comunidade Judaica de Lisboa, Natan Peres.
     Nascido no Brasil há 44 anos, formado em Nova Iorque e Jerusalém como rabi, Peres chegou a Lisboa para ser o novo responsável religioso da sinagoga, substituindo o rabi Eliezer di Martino. 
     Em entrevista à Renascença, Natan Peres recorda o facto de, durante séculos, os judeus terem tido de fugir dos lugares onde viviam, o que os torna particularmente sensíveis à questão dos refugiados: “O povo judeu encontrou-se várias vezes, ao longo da história, numa posição de refugiados. Se há algum povo que pode compreender a situação dos refugiados e o quão difícil isso é, somos nós”, diz. “É nosso dever” ajudar os refugiados, acrescenta, e a Europa “ainda está a aprender a lidar com este influxo, uma realidade nova, em relação ao número de pessoas”. 
     O novo rabi também fala sobre a recente declaração dos EUA no sentido de reconhecer Jerusalém como a capital do Estado de Israel: “Estas questões políticas de vez em quando influenciam-nos a questionar coisas que não são questionáveis. A nossa ligação a Jerusalém é uma coisa que não se deve questionar. Agora, ser ou não ser a capital de um Estado judeu, é um departamento diferente. Cabe aos órgãos políticos resolver a questão do estatuto de Jerusalém.” 
     Em dia de Shabath judaico, um texto mais completo pode ser lido aqui.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Jornalismo e religião - a propósito da manchete do Público

Comentário


     A notícia da nota do patriarca, referida na publicação anterior, foi a manchete do Público de hoje, mas com um título forçado e que desvaloriza o texto rigoroso que está publicado no seu interior. 
     Ou seja: não se pode dizer “Igreja aconselha abstinência sexual aos católicos recasados”, como se lê na manchete do jornal (e onde se percebem mãos diferentes das da autora do texto, Natália Faria). Tão “Igreja” é a nota do patriarca como a carta pastoral do arcebispo de Braga divulgada há duas semanas; cada bispo, conforme o Papa diz na Amoris Laetitia, deve dispor as orientações para a sua diocese; por isso, não há, no documento de Lisboa, qualquer orientação para o conjunto da “Igreja”, como diz o título. A nota de D. Manuel Clemente destina-se apenas aos crentes da sua diocese, enquanto a carta pastoral de Braga também não atinge mais do que os católicos da diocese minhota. Valem o mesmo.
     A ideia de que o patriarca é o “chefe” da Igreja em Portugal, que erradamente persiste no senso comum, tem aqui uma nova manifestação. Não: o patriarca é “apenas” o bispo dos católicos de Lisboa. Neste momento, o actual patriarca é também o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que é tão só um organismo de consulta mútua e cooperação entre os diferentes bispos do país. E apenas quando alguma decisão é tomada em conjunto por todos os bispos da CEP é que ela obriga todas as dioceses e todos os bispos.
     Para que melhor se perceba, as decisões da Câmara de Lisboa dizem respeito apenas aos munícipes de Lisboa; e não é pelo facto de Lisboa ser a capital do país ou de, neste momento, o executivo municipal ter a maioria do mesmo partido que está no Governo do país, que as decisões da Câmara de Lisboa passam a ter carácter nacional. A responsabilidade social do jornalismo passa pelo rigor da informação. Mesmo no que à religião diz respeito.

Dois caminhos para a Amoris Laetitia em Portugal

 (foto reproduzida daqui)

Estão consagrados dois caminhos, entre as dioceses católicas portuguesas, para a aplicação da Amoris Laetitia (AL), no que respeita às orientações para a integração comunitária e sacramental dos crentes divorciados que voltaram a casar. Depois da publicação, há duas semanas, da carta Construir a Casa sobre a Rocha, do arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga
(que rapidamente fez polémica nos Estados Unidos, certamente induzida por portugueses), foi agora a vez de o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, publicar as orientações para a diocese de Lisboa sobre o mesmo tema.
Numa nota com data de anteontem, terça, dia 6, o patriarca começa por referir que, na Amoris Laetitia, o Papa fornece “o quadro geral da compreensão cristã do matrimónio e da família e oportunas indicações sobre a respetiva formação e acompanhamento”. No capítulo VIII da exortação – “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade” –, acrescenta a nota, Francisco “não esquece as situações de fragilidade, especialmente as assim chamadas ‘irregulares’, em que ao matrimónio sucedeu a rutura e um casamento civil”. Estas situações, diz ainda o patriarca de Lisboa citando o número 300 da AL, também “deverão ser acompanhadas”: “Os sacerdotes têm o dever de acompanhar as pessoas interessadas pelo caminho do discernimento segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo.” 
O caminho proposto pelo patriarca diverge do de Braga (entretanto já seguido pelas dioceses de Aveiro e Viseu), precisamente e sobretudo nesta matéria: na diocese minhota, o arcebispo coloca o acento no casal e num processo de discernimento que este deve fazer. Um processo do qual o mínimo que se pode dizer é que se trata de um caminho exigente para quem decide nele entrar, pelo menos na forma como é apresentado (poderia mesmo afirmar-se que, se um caminho do género fosse seguido antes da ordenação de padres, alguns ficariam pelo caminho...).
Já em Lisboa, a responsabilidade maior é colocada no confessor ou director espiritual. Enquanto em Braga se admite que o processo pode levar o casal (com o acompanhamento de um padre ou director espiritual) a decidir-se por regressar aos sacramentos, em Lisboa acentua-se o carácter muito excepcional dessa opção e acentua-se a proposta de abstinência sexual. Em ambos os casos, sublinha-se a doutrina católica tradicional do matrimónio indissolúvel, mas admitem-se caminhos diferentes para resolver os problemas de quem acabou com o casamento desfeito. 
Pretendendo basear a sua nota em três documentos – a Amoris Laetitia, a correspondência entre os bispos da região de Buenos Aires e o Papa Francisco e as indicações dadas aos padres da diocese do Papa (Roma) pelo seu cardeal-vigário – e sugerindo a leitura desses textos na íntegra, D. Manuel Clemente acentua aquilo que, no seu entender, devem ser as “as necessárias condições de humildade, privacidade, amor à Igreja e à sua doutrina, na busca da vontade de Deus e no desejo de chegar a uma resposta mais perfeita à mesma”. (AL, 300).
Sempre citando o documento do Papa, o patriarca acrescenta que a consciência formada “pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objetivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus e descobrir com certa segurança moral que esta é a doação que o próprio Deus está a pedir no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo.”